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[ sobre ganas ]





Sobre o medo
Sobre a revolta
Sobre a ilusão
Sobre a desilusão
Sobre a traição
Sobre o medo
Sobre a bondade
Sobre o erro
Sobre os erros
Sobre a amizade
Sobre a confiança
Sobre a rede
Sobre tudo
Sobre nada
Sobre os rituais
Sobre o recobro

Sob a chuva.




Amor de Gustav Klimt
1895

absorver. obsceno. lateral. caminho. fuga. meio.

É dia 5 e o tempo já parece encurtar, durante este mês, dentre as habituais tarefas, tenho de:

# preparar-me para 15 horas de crucificação lenta, agendadas para a primeira semana de Abril.
# preparar-me para uma discussão irritantemente cheia de sorrisos (que prevejo infrutífera) na segunda semana de Abril.
# pôr mãos na massa dum projecto que anseio e do qual sei que me irei arrepender uma centena de milhar de vezes até estar terminado.
# tomar uma decisão daquelas
# e… fazer a pega final ao bode.

Portanto, parece-me o timing certo para aceitar o convite de participação em… mais um blog!
...pronta para a chamada, c ;)

René Magritte por Lothar Wolleh
Bruxelas, 1967

A fronteira

«Mais», rogara, «mais», mas por fim ele caiu para trás com uma colossal dor de cabeça e disse-lhe que não podia continuar a arriscar a vida. Tinha-se sentado pesadamente, pálido, a transpirar e ofegante, enquanto ela prosseguia sozinha a sua demanda. Nunca tinha visto nada assim. É como se estivesse a lutar contra o Destino, ou com Deus, ou com a Morte, pensara; como se, se conseguir ultrapassar mais uma, nada nem ninguém a possa deter de novo. Parecia encontrar-se numa espécie de estado de transição entre mulher e deusa e ele teve a estranha sensação de ver alguém a deixar este mundo. Ela estava prestes a elevar-se, a elevar-se mais e mais, tremendo eternamente no supremo frémito delirante, mas em vez disso alguma coisa a deteve e um ano depois estava morta.


in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal
2000



Dead Girl de Egon Schiele
1910

do not touch, please (thank you)

Tentativa de justificação acerca da presença estranha do post abaixo: não gosto que me toquem pessoas estranhas. Inclui-se neste não-gostar: apertos de mão, palmadas nos ombros e costas, encostos de rosto com consequência de beijos e abraços. Pensava que, no limite, me tinha acontecido não conseguir escapar a beijos, mas não, meus senhores, a necessidade de espaço corporal alheio não fica por aqui: esta semana levei uma palmadinha na anca. Eu sabia que não era bom agoiro vestir uma saia de pregas, mas jamais poderia ter chegado a tanto. A dita senhora que me presenteou com um sorriso e uma palmadinha na anca (uma palmadinha na anca) tinha ar de quem me achou “jeitosinha com a saia de pregas”, vai disso… palmadinha na anca!
Sendo a minha memória algo tortuosa, e na aflição do momento, pensei “terei escrito na testa TOUCH ME”?

Tenho um problema com os costumes corteses convencionados… revoltam-me as vísceras. E perguntam-me vocemessês – Porquê? E eu respondo com perguntas: Porque têm os costumes de cortesia necessidade de corpo? Porque têm os costumes de cortesia necessidade de pele? Porque temos de dar e receber? Porquê esta razia entre corpos incógnitos nas emoções? Hm? Hein?! Enfim. Não percebo. Não gosto. Pronto. Don’t get me wrong, sou afável, até tenho um bocadinho de dó dos meus alvos de mimo, presumo sou um bocado dengosa ('tá dito)... só não gosto de ter de ser tocada por outras pessoas por motivos meramente sociais. Porque é que não serve fazer uma ligeira inclinação de cabeça? Uma ligeira inclinação de cabeça associada a um bonjour (gosto tanto de dizer bonjour!). Porque é que não é suficiente? Ou um apontar de dedos tipo E.T., também era catita, dedos esticados mas sem se tocarem. Porque não?! Porque é que temos de levar constantemente com corpos de pessoas estranhas à nossa intimidade?

Pronto, está explicada a presença da Samantha Fox neste blog. Adiante.



pormenor d'A Criação de Adão de Michelangelo Buonarroti
1511

botânica

Durante 1 ano, mais coisa menos coisa, escrevi textos que se assemelham a poemas. Devo dizer que penso que não eram más imitações, fingiam bastante bem. E digo mais: muitos leigos podem ter acreditado que estavam a ler poemas. Cada qual tem aquilo que merece. Não é difícil escrever uma imitação de poema. Houve vezes em que senti aproximações de calafrio. Não sou insensível como uma besta embora pese que na grande maioria das horas sou insensível q.b.. Dizia sobre os calafrios que por vezes senti, enfim não se pode dizer que me envergonho, mas também não me orgulho. Sem mais rodeios, confesso que houve dias em que senti desconcerto por estar a usar palavras, digamos… nobres, em imitações de poemas. Está dito. Agradeço que não vá alguém incorrer no erro de pensar que esta confissão seja uma declaração de sensibilidade ou, pior, de respeito. Adiante.
Engendrei uma fórmula, que jamais tornarei pública, para que me caiam as mãos e queimem os olhos se eu voltar a usar as palavras sono cozinha tremocilha pássaro pele fome cerejeira magnólia amendoeira palavra tu verde água pão mãe corda terra filho filha filhas filhos silêncio pomar corda mãos útero cama raiz árvore árvore árvore em imitações de poemas.
Eu tinha obrigação de não ludibriar as pessoas. Atenção, não é uma obrigação qualquer, é obrigação profissional. Fui treinada em Linguagem. E ficam a saber que frequentei uma escola prestigiada. Ah pois!
Imagino o que diriam alguns dos meus professores se soubessem desta vida dupla que levo com as palavras. Tenho saudades deles. Já agora, aproveito este momento para dizer que nunca concordei com a troça que faziam da professora E. nas aulas de Linguística. Sempre me deliciei à volta das árvores de palavras que ela desenhava no quadro.

Repare-se na expressão: .á r v o r e. .de. .p a l a v r a s.. Notável. Absolutamente notável.

Rigor: Uma pessoa que se comova com árvores de palavras deve ter mais acatamento.

Photobucket

Árvore de outono com brincos de princesa
de Egon Schiele
1909

This derangement.

Reclining Nude, Amadeo Modigliani
1919

Attachment creeps in. The eternal problem of attachment. No, not even fucking can stay totally pure and protected. And this is where I fail. The great propagandist for fucking and I can’t do any better than Kenny. Of course there is no purity the kind Kenny dreams of, but there is also no purity of the kind I dream of. When two dogs fuck there appears to be purity. There, we think, is pure fucking, among the beasts. But should we discuss it with them, we would probably find that even among dogs there are, in canine form, these crazy distortions of longing, doting, possessiveness, even of love.
This need. This derangement. Will it never stop? I don’t even know after a while what I’m desperate for. Her tits? Her soul? Her youth? Her simple mind? Maybe it’s worse than that – maybe now that I’m nearing death, I also long secretly not to be free.


in The Dying Animal de Philip Roth
Vintage Books, 2001




Uma árvore é uma obra de arte quando recriada em si mesma como conceito para ser metáfora.

Alberto Carneiro
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