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verb to do

sit and talk, raise and walk



O que é que posso fazer quando o corpo pede tréguas mas a cabeça reclama caminho?
re: escrever com dedos cautelosos.

Tenho as práticas amontoadas. Não se querem organizar em carreiras. Mas eu insisto – há que esperar vez. Sou compreensiva das razões por isso não desespero com as urgências. Tenho porém de pôr ordem no edifício. Careço de mais um pouco de coragem que hei-de encantar. Certamente. Hoje peguei numa mão alheia com as minhas mãos e acreditei fazer parte desse corpo. Emaranhei-me em tantos dias que esquecera o desafogo das palavras naturais. Soluço. Receio uma minúscula ninharia que não devo, mas posso. Quando o corpo não estiver cansado, construirei uma checklist segundo normas. Os sprints não devem servir de equívoco, são apenas um ápice para encontrar o dia seguinte. Gosto de sprints. Gosto da circunstância do dia seguinte.

actualização em bloco de notas

#1 Sentámo-nos a beber cerveja que servi nas canecas de barro. Queixei-me dos acufenos e inventámos cenários sem modéstia comparados a Woddy Allen. Acho lógico tornar-me hipocondríaca. Para mais que não fazia parte dos meus planos. E como os planos saem sempre furados…
#2 Bem, nem sempre, ripostou cheio de razão após um segundo de silêncio.
Este plano está a sair conforme os ditames dos nossos desejos.
(Pessoalmente, não sei para onde me hei-de virar.)
#3 Arranjei um novo bloco de notas (moleskine®) ao qual me afeiçoei de imediato.
#4 Falta-me arranjar uma caneta. Direi que caneta irei comprar, mas não sem antes sublinhar que não é por influência de Sócrates (o português). Considerando que me podem incomodar os juízos de valor, fica a ressalva. A caneta: uma Parker®, daquelas baratinhas.
#5 Completo o kit de bloco e caneta, avanço. Hoje ainda não porque quero saborear a angústia. Uma pessoa em afeiçoando-se à angústia custa a largar.
#6 Amanhã completarei uma série interminável de projectos. Depois posso ir embora. E vou. Vou mesmo.
#7 Vou embora e não sei se digo para onde.
#8 Quiçá enterrarei mais a cabeça na areia ou, surpresa das surpresas, saio dos armários.
#9 Ainda não decidi para qual das colónias irei: se para a colónia dos que estão cheios de razão e ensinam isso aos outros; ou se para a colónia dos que mostram que os outros não estão cheios de razão e cheios de razão ensinam isso aos outros. Estou sinceramente indecisa.
#10 Pena ainda não ter comprado a caneta, espero não me esquecer de anotar a urgência em tomar esta decisão no meu bloco de notas.
#11 Como vêem, é uma alegria, tantas e tantas coisas para anotar com a minha caneta Parker® no meu bloco de notas moleskine®! Um mundo no meu bloco de notas.
#12 O mundo.
#13 Meta-anotarei os meus pensamentos de pessoa profundamente impressionável e depois lerei vezes sem conta. Em voz alta ou em surdina, consoante o estado de espírito. Já imagino as folhas com aspecto manuseado. O papel encardido do suor das minhas mãos.
#14 Que excitação!
#15 Resta-me decidir se comprarei uma caneta Parker® de tinta azul ou de tinta preta, e sob que ortografia utilizarei a caneta.

do not touch, please (thank you)

Tentativa de justificação acerca da presença estranha do post abaixo: não gosto que me toquem pessoas estranhas. Inclui-se neste não-gostar: apertos de mão, palmadas nos ombros e costas, encostos de rosto com consequência de beijos e abraços. Pensava que, no limite, me tinha acontecido não conseguir escapar a beijos, mas não, meus senhores, a necessidade de espaço corporal alheio não fica por aqui: esta semana levei uma palmadinha na anca. Eu sabia que não era bom agoiro vestir uma saia de pregas, mas jamais poderia ter chegado a tanto. A dita senhora que me presenteou com um sorriso e uma palmadinha na anca (uma palmadinha na anca) tinha ar de quem me achou “jeitosinha com a saia de pregas”, vai disso… palmadinha na anca!
Sendo a minha memória algo tortuosa, e na aflição do momento, pensei “terei escrito na testa TOUCH ME”?

Tenho um problema com os costumes corteses convencionados… revoltam-me as vísceras. E perguntam-me vocemessês – Porquê? E eu respondo com perguntas: Porque têm os costumes de cortesia necessidade de corpo? Porque têm os costumes de cortesia necessidade de pele? Porque temos de dar e receber? Porquê esta razia entre corpos incógnitos nas emoções? Hm? Hein?! Enfim. Não percebo. Não gosto. Pronto. Don’t get me wrong, sou afável, até tenho um bocadinho de dó dos meus alvos de mimo, presumo sou um bocado dengosa ('tá dito)... só não gosto de ter de ser tocada por outras pessoas por motivos meramente sociais. Porque é que não serve fazer uma ligeira inclinação de cabeça? Uma ligeira inclinação de cabeça associada a um bonjour (gosto tanto de dizer bonjour!). Porque é que não é suficiente? Ou um apontar de dedos tipo E.T., também era catita, dedos esticados mas sem se tocarem. Porque não?! Porque é que temos de levar constantemente com corpos de pessoas estranhas à nossa intimidade?

Pronto, está explicada a presença da Samantha Fox neste blog. Adiante.



pormenor d'A Criação de Adão de Michelangelo Buonarroti
1511

botânica

Durante 1 ano, mais coisa menos coisa, escrevi textos que se assemelham a poemas. Devo dizer que penso que não eram más imitações, fingiam bastante bem. E digo mais: muitos leigos podem ter acreditado que estavam a ler poemas. Cada qual tem aquilo que merece. Não é difícil escrever uma imitação de poema. Houve vezes em que senti aproximações de calafrio. Não sou insensível como uma besta embora pese que na grande maioria das horas sou insensível q.b.. Dizia sobre os calafrios que por vezes senti, enfim não se pode dizer que me envergonho, mas também não me orgulho. Sem mais rodeios, confesso que houve dias em que senti desconcerto por estar a usar palavras, digamos… nobres, em imitações de poemas. Está dito. Agradeço que não vá alguém incorrer no erro de pensar que esta confissão seja uma declaração de sensibilidade ou, pior, de respeito. Adiante.
Engendrei uma fórmula, que jamais tornarei pública, para que me caiam as mãos e queimem os olhos se eu voltar a usar as palavras sono cozinha tremocilha pássaro pele fome cerejeira magnólia amendoeira palavra tu verde água pão mãe corda terra filho filha filhas filhos silêncio pomar corda mãos útero cama raiz árvore árvore árvore em imitações de poemas.
Eu tinha obrigação de não ludibriar as pessoas. Atenção, não é uma obrigação qualquer, é obrigação profissional. Fui treinada em Linguagem. E ficam a saber que frequentei uma escola prestigiada. Ah pois!
Imagino o que diriam alguns dos meus professores se soubessem desta vida dupla que levo com as palavras. Tenho saudades deles. Já agora, aproveito este momento para dizer que nunca concordei com a troça que faziam da professora E. nas aulas de Linguística. Sempre me deliciei à volta das árvores de palavras que ela desenhava no quadro.

Repare-se na expressão: .á r v o r e. .de. .p a l a v r a s.. Notável. Absolutamente notável.

Rigor: Uma pessoa que se comova com árvores de palavras deve ter mais acatamento.

Photobucket

Árvore de outono com brincos de princesa
de Egon Schiele
1909

post reproduzido na íntegra do blog O Café dos Loucos

Coimbra, 1 de Fevereiro de 1937


MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.


Fernando Assis Pacheco, in "Sião" frenesi, 1987




Post afixado por Miguel n'O café dos loucos que roubo descaradamente e dedico ao Bonirre, ao Dr.Gica, à Armanda, ao Pedro, à E., enfim... a nós, portanto, neste dia 1 de Fevereiro de 2008 em que alguma coisa muda. É um dia diferente. É um dia de reflexão.


Bom-dia, camaradas!

ring-around-a-rosie

Quando, de alguma forma, se é outsider, é natural (d'a natureza das tribos) o indivíduo ver-se negado de certas regalias de pertença à tribo; este facto pode mascarar-se e parecer um mal-maior. Sendo que a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer*, sucede-se o pensamento do dia: É importante mantermo-nos focados no declínio das regalias de tribo em favor da leveza da genuinidade.

Ring around a rosie!
Ring around a rosie, a pocket full of posies. Ashes, ashes, we all fall down!
We all fall down!


Children Playing "Ring around a Rosie", Edwin Rosskam
Chicago, 1941


*A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer de Stig Dagerman
Fenda ed., 1995




Uma árvore é uma obra de arte quando recriada em si mesma como conceito para ser metáfora.

Alberto Carneiro
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