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[ rascunho do que gostaria de (d)escrever ]

Sei que, por estes dias, ainda me falta ler Camões com atenção. Sei disso. Ando sempre de volta do saber. Ando sempre de volta das secreções. (É tão natural quanto eu e os cadáveres. Natural.) As minhas (secreções) são tácitas, existem mas não as vejo, não lhes sinto a mucosidade. As outras existem, vejo-as, sinto-as, pego-lhes com a mão direita, assim. Para que seja pontual, restam-me 13 minutos. Resta-me pouco tempo pelo que repito “um pouco de calma, alguma poesia”. Já sei qual é a minha missão para evitar desistir já. Não é fácil, e eu que sempre gostei do fácil... E eu que nunca fiz apanágio de me mostrar mestre de dificuldades... Para que fui inventar esta vida? Ando de roda das tabelas com nomes que transformei em números para ciência. Confundo tudo. Prevejo o mal da minha essência e atiro-me nos braços dos que me aturam. Deixo-me pensar o pior de mim e não sei aceitar.

Não deveríamos fazer isto uns aos outros. Depois, num instante tão rápido quanto um instante consegue ser, percebo tudo de novo. São cansativos estes abandonos, cada vez mais se torna delicado o retorno. Sinto as pálpebras vermelhas vivas. Sei o cabelo parco. As peles estão próximas das de uma mulher de avental preto e avantajado. Lembro a alegoria da peixeira e retorno. Se eu fora peixeira, desesperaria com a mesma intensidade à insatisfação que congemino dos meus clientes e colocaria em causa as motivações para me distinguirem * como sua fornecedora. É certo. Olha, estão aqui, assentes no chão, os meus pés. E a minha mão direita, com que limpo secreções. Ainda me restam 5 minutos. Declaro este texto “rascunho do que gostaria de (d)escrever”. Dedico-o ao c, à Truta e à Marta. Restam agora 4 minutos, já piquei o dedo.

[ moving ] [ through ] [ life ] [ as ]


(at the museum), CCB, Lisboa
2007
produção conjunta Carlos Veríssimo e Sandra Cruz

lindo. lindo!

Excerto lido pelo pai.
Do livro "A Estrada" de Cormac McCarthy.

aos pais que por aqui passam:
Feliz dia do pai!

o sentido da vida

Estranho. A única coisa em que pensas é que ela morreu. Isso até se aplica aos mortos. Eu aqui em cima, na claridade e no quente e, quilhado como estou, com cinco sentidos, um cérebro e oito tipos de compotas – e os mortos mortos. A realidade imediata está do lado de fora daquela janela; é tão grande, é tanta, tudo enredado em tudo o mais… que grande pensamento se esforça Sabbath por exprimir? Está a perguntar: «Que aconteceu à minha própria vida genuína?» Estaria a ser vivida noutro lugar? Mas nesse caso como é possível olhar para fora desta janela seja tão colossalmente real? Bem, essa é a diferença entre o verdadeiro e o real. Nós não chegamos a viver na verdade. Foi por isso que Nikki fugiu. Era uma idealista, uma comovedora, inocente e talentosa ilusionista que queria viver na verdade. Bem, se a encontraste, miúda, foste a primeira. De acordo com a minha experiência, o sentido da vida vai na direcção da incoerência – precisamente o que nunca quiseste enfrentar. Talvez essa tenha sido a única coisa coerente que te ocorreu fazer: morrer para recusares a incoerência.

in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal
2000



fotografia de Carlos Veríssimo

[meanwhile] light & black & silence & you & me &


(at the museum), CCB, Lisboa
2007
produção conjunta Carlos Veríssimo e Sandra Cruz

manda embora os dias, por favor

[ quando o mar és tu. Apenas tu. ]

A música devolve-te
neste modo de respirar,
quando canto,
quando não te alcanço os lábios.

O silêncio arrecada-me
neste modo de respirar,
quando nado,
quando o mar és tu. Apenas tu.

Recado

O silêncio arrecada-me assim,
quando sem que saibas
a maré me devolve a ti
e tudo recomeça nos teus braços.

[ na delonga da devolução ]

Ardem no sal os meus membros
enquanto a devolução espera
o prazo dos sujeitos desalmados
manda embora os dias, por favor

quero nadar sem dor
quando nado
quando o mar és tu. Apenas tu.

Post-Scriptum

Se não vieres
manda embora os dias, por favor
rasga as águas.

Photobucket
sem título, Carlos Veríssimo

sequência de desgarrada entre mim e a Marta (se quiserem saber quem escreveu o quê, está ali)




Uma árvore é uma obra de arte quando recriada em si mesma como conceito para ser metáfora.

Alberto Carneiro
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